DORSOS DE LUZ DE ÁGUAS MAIS PROFUNDAS
por Manuel Neto dos Santos

59 Poemas ígneos
27-31/1/13


Para Hilda Hilst
In memoriam



Pois se o sol surge sempre
Em lugar certo…
Que seja certa a luz de um novo verso.

*

Eu vejo os sons
E vejo as cores;
Da crista das ondas até ao bojo
Das fossas abissais.
Uma corda de luz que, à uma,
Une as duas.
O ontem e o hoje
O verso e o silêncio
De uma demora em ter tudo o que não
Quero mais.

*

A arte é meio de vida.
A outra metade?
O sonho de lhe pertencer por inteiro.

*

A arte solitária agora é vossa.
Tomai e passai a sê-la;
No regresso à vida.
Nada nos pertence
Para além
Da luz que existiu já.
Naquela estrela, havida.

*

O que não digo é o que vos digo.
Sombra de luz escorrendo das palavras;
É pelo seu deslizar que falamos.
Procuro a transcendência pelo ouvido.
Há um dorso redondo e aveludado no corpo
Fêmeo e fecundo, da voz.
Tudo é fértil e promissor
Na prenhez de um som
Que há- de ser, um dia,
Poema.

*

O mundo vai morrer neste poema;
Campa rasa
Na brancura do papel.
Tragam-no à vida pelo velejar
Dos vossos olhos,
E pelas naus das vossas almas;
Arrojadas como as outras,
As de D. Manuel.

*

Um dobre da luz passa nos montes.
Quem foi ou o que morreu?
Ninguém me diz.
Falso toque a rebate…
Foi um raio de sol
Que desceu pela árvore,
E cocegou a raiz.

*

Espero até ao fim das brumas.
Um desejo à espera de si mesmo;
Rasgar-se- á o céu no preciso momento
Que preciso por ter Desejado…
Ser mais do que eu.

*

A alma pisada dos caminhos
Mostra hematomas de poemas.
Lavrem-me o auto;
Fui eu que os espanquei.
Tanta coisa de ti que nada sei.
Tanta coisa de mim que já esqueci;
Luzes,
Aromas,
Traços picotados…
E o murmúrio das águas silenciosas
No fundo dos poços e das noras
Trazido, à flor dos dias,
Pelo braço das picotas.
A aurora boreal é o seu regresso.
Nada sei,
Nada relembro…
Nada mais vos peço.

*

A música tardia dos seus gritos
Fez-se silêncio no dia seguinte.
Nada mais grave do que sofrer em contratempo.

*

Um momento para a ordem antiga.
O fumo é um bufo,
Um delator do fogo
Ainda por surgir.
Quando me segredas,
O fumo é a promessa tossigosa e espessa,
Como os versos que andam
Dentro da cabeça.
A ordem antiga… é que me faça
Labareda.

*

O artifício da linguagem
Inventa,
Pela narina, a ideia que sobe
E o poema que a venta,
Expelindo,
Venta.
O silêncio de muitos anos de conflito
Regressa, como uma açoteia para a acalmia.
Um gato pelos telhados, em Janeiro,
Papagueia o choro da criança
Em desespero…
E a cal… mia.

*

Praia sem água, vida sem mudança.
Baixa-mar da essência,
No reflexo da alma…
Engolida por si mesma.

*

A maravilha da luz
É dar-nos o visto
Exactamente como não é.
Consente o sonho,
Diz sim a tudo o que não digo…
Escrevo. De pé.
*
Traz-me o perdão das águas fundas.
Tão nada,
Tão nada…
Que a sentença, a frase,
É a insolvência por onde tu, tempo-espaço,
Abundas.

*

Vozes que eu amo,
Com a paixão de um Deus.
Dormi, dormi sagradas
Que a eternidade se compõe de pequenos nadas.
Num outro plano mais fundo,
Onde o único compasso é o vai- vem
Das águas sem descanso;
Celebra-se, no lago amniótico da Terra,
O suave respirar
Da eternidade sem olhos que o observem;
Manso.

*

O ritmo,
O ritmo fundo e mais secreto;
O sol em queda livre no horizonte…
E a bisbilhotice da alma
Alcoviteira, a dizer-me que vos conte,
Antes que o céu se torne preto.

*

Hirta de luz,
Ébria, de pé,
Lívida de silêncio…
Eis a palavra a dizer- vos,
Sendo o que sois, o que é.

*

Entre os meus dedos
Que não sabem os poemas
Que a essência descreve…
A pena é o estilo;
Styllos
Que nem ao menos sou eu.
Traz- me de novo a luz que vem do mar
Reflectida no azul dos olhos teus;
Dá- me o desassossego,
E a letárgica dormência
De quem espera o que não quer
De forma alguma.
Traz- me a memória do que não fui
Nem hei – de ser.
Vem até mim…
Como se fosses espuma.

*

A flor, a tua flor, a flor da noite,
A que há- de ser inteira,
Muito em breve.
O contorno das pétalas,
Muito leve,
Rascunhos do teu corpo…
À minha beira.

*

Antes a vida, a luz e o seu esplendor
Que o sonífero da morte,
E seu torpor.
Eis- me desnudado.
Desnudado…
Como pelas mãos da parteira retirado.
Somente a luz não é suspeita;
Tanta alma, tanta vida…
E ninguém, a estreita.

*

Ó festa da luz do mar tranquilo.
Espelho com o segredo dentro,
Um aluvião.
Cortejo reptilário
Para os olhos deslizantes que aqui estão.

*

Da luz por dentro das horas mortas,
A murta e a mirra
Para o incenso do que não
Foi dito ainda.
A clepsidra, pelo sopro do vidro embaciado…
É a espera que não finda.

*

Selvagem como um deus…
Estou perante tudo
Como uma rocha,
Como o musgo;
Na férrea e sedosa vestimenta
De sonhos que ainda não são meus.

*

Sou o intervalo entre dois silêncios;
Com passo certo
Para a música
Das esferas paralelas.
Sustido e sustenido,
Suspeito do rumor
Que se esconde em todas elas.
Batendo sobre a praia do meu rosto,
A maresia suave da aragem
Traz- me uma memória,
Que não quero ter, nem sentir…
Os grãos do que antes fui
Ganham novas formas, sendo os mesmos,
Duna que se ergue e que se desfaz
Na permanência da coragem.

*

Pudesse eu dizer tudo;
Linha exacta,
Na perpendicular
De um raio de sol,
À hora do meio dia.
Mas não, a ex- acta é toda a ilusão
Que antes vivia.

*

Tudo é ausência,
Ausência de verdade…
Pela mentira- mor
De me sentir metade.

*

Tudo morre a cada instante,
Enquanto nasce.
Menos o ensejo de ir por diante,
Por dentro do fulcro
Que antevejo;
Perpétuo, mas errante.
Nasci quase no mar, quase na terra.
Faço, das mãos,
A quilha e a enxada
Para sepultar os sonhos naufragados.
Nasci nesse lugar inexistente;
Todos os lados.

*

Os lábios,
Não há dúvida,
Eram teus.
Ou seriam os meus
Na esmola que me deste
E me roubaras?…
Sim eram meus-teus,
Como podes adivinhar no sorriso
Que perdura
Em nossa cara.

*

Graça, repousada e furiosa;
A cauda da libelinha agitando o lago.
Um toque.
Um toque,
Tão somente à flor da folha em branco;
Aqui está meu único feitiço…
Que vos ofereço e trago.
Os lugares sagrados onde o corpo passou…
Ergue a testa
À altura do horizonte,
Aceita-me o conselho;
Esquece-te de ti, de olhares
A ponta dos teus pés.
Tu és o todo que contemplas,
A reverberação da luz és tu,
Na luz que ri…
Ou será, de longe, o espelho?

*

Passa por mim, inteira, como um rio
A brevíssima consciência da demora.
Diz- me que passou…
Pois senti frio.
Diz-me que permanece…
Crepito agora.

*

Da tua dor
Faz um caudal de espuma,
Não da coroa dos dias
Mas da raiz das noites
Que deixam cair a negra cortina das horas.
Tudo é breve e efémero,
Como a manhã rompendo
E, do caudal, não fica coisa alguma.
A tua dor é feita de tudo o que não choras.
Tão poucas as lembranças que nos ficam.
É o vazio que nos preenche a alma…
O que transborda,
Sim, é que é a memória
Palmatoada, como a palma.
A lembrança é apenas uma conquista,
Inglória.

*

Iluminar é apenas esquecimento,
Breve e vago instante de incerteza,
O instante passa a ser momento
E o vazio, tremulante, luz acesa.

*

Encontro um som que vem como uma onda.
O poema
Que desenho, é um dorso,
Um corgo
Ondulado pela linha do silêncio.
A terra já não tem um céu
Sob o qual se esconda
E o escuro é um borrão, sobre o poema;
Vence-o.

*

Pertence-nos a morte,
Por inteiro.
Essa que nos arrasta
Para
O fundo
Do
Abismo
De um veludo de água.
É o afogamento da memória e esquecimento
Que nos lava a mágoa.
No fecundado tempo da ausência,
O regresso é a gestação do sonho;
Entre um e outro, a ponte de vidro que lanço
Entre margens e linhas…
Por onde o tempo transponho.

*

Nas fogueiras ateadas por Agosto,
Pigmenta-se a luxúria
Por todo o corpo.
Que o diga o rosto.

*

Como vagas antigas,
Serão os dedos
Acariciando a pele luzidia do teu corpo…
Praia espraiada
Onde a alvorada achada,
Já deitada,
Se abre toda, por inteiro,
Aos meus segredos.

*

Doar meu sangue ao livro
E à ventania.
Do ar, a excelsa condição de ser…
Poesia.
Acendo a luz.
Um fósforo
Chega
Para a vela do desejo,
Da barcaça da ilusão.
Um fósforo.
Como uma estrela cadente…
Ou um vulcão.

*

Como as palavras que viajam, silenciosas,
São discretas, incontáveis
Fantasias.
São levas, segredadas como um crime,
Que chegam…
Como o amor que me trazias.

*

Para que eu pudesse olhar a luz da lua…
Nasci com os olhos do tamanho do universo.
Rasos, como a planura
De um raio de sol
Que incide sobre a crista da onda…
E, a seguir… flutua.

*

A sombra doce da tua mão
Sobre a minha face;
Calor amornado
E breve
Anunciando a claridade,
Do enlace.
Fulminadas por um raio incandescente,
As gotículas são bolas de cristal.
Translúcida, a memória
Que há- de refulgir em mim
A reverberação da cal.

*

Deram as mãos,
À noite moribunda,
As sombras neófitas,
Estremunhadas.
E as veredas, os carreiros,
Alargaram-se em viuvez…
E, agora, chamam-se:
Estradas.

*

Sem nenhum receio
Nem medo
Mas feliz…
Levo a lâmpada
De seiva
Pelas artérias da raiz.

*

O amor é, ainda,
Um texto a fecundar a terra.
Na fértil podridão de um sonho
Onde, a golpes de rins,
A semente (impaciente)
Rasga o cárcere onde se encerra.
Devolução da aurora e luz do dia.
Aqui está a noite derreada de escuro e mansidão.
Fugiram estrelas
Como cabras pelos montes.
“ Quem me diz, quem me diz
Onde é que estão?”
“Não digas, alvorada, não lhe digas,
Não lhe contes!”

*

Amada luz, que assim te despes,
Cobre-me de mornura o corpo estreito.
Deita-te em mim,
Como se fosse o rio que é teu
Como se fosse, sem ter margens,
O teu leito.

*

O fio do horizonte
Começou agora a oscilar.
Onde acaba a terra?
Onde começa o mar?

*

Perdida de paixão
Tendo o direito pelo avesso…
Que venha a luz chicotear-me
O corpo da alma,
À solta,
Desenvolta…
Mais não peço.

Manuel Neto Dos santos

Sobre o autor:

Nasceu em Alcantarilha (Silves-Algarve) a 21 de Janeiro de 1959.

Frequência superior em filosofia. Autor de vastíssima e multifacetada obra poética, grande parte dela ainda inédita. Nas suas 16 obras já editadas, a sua essência telúrica remete- nos para marcada ascendência arábico- andalusa, espelhando claros sensualismo, ritmo e luminosidade. A riqueza de todo um léxico onírico, na frescura de uma voz tão livre, única, quanto universal.

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