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ADELAIDE Independent Quarterly Literary Magazine / Revista Literária Independente Trimestral, New York / Lisboa, Online Edition  

 

 

 


 

 

marquez de pombal

HOMENAGEM AO
MARQUEZ DE POMBAL

Por Alberto de Magalhães  (1882)

 

AO MARQUEZ DE POMBAL

Por Alberto de Magalhães
Poesia recitada no Theatro Valenciano,
no sarau litterario-musical de 8 de maio de 1882.

I

De joelhos heroes! Baixai a fronte altiva,
Que passa triumphante, aureolada e viva
A sombra d'outro heroe!--a luzitana gloria
Que ha um seculo morreu para viver na Historia.

É cedo inda talvez para a consagração;
Não 'stão extintas já as luctas da paixão;
E a treva--a emulação--debate-se na liça,
Emquanto não raiar o dia da Justiça.

Mas vós, a mocidade, a esperança do Futuro,
Que altivos caminhaes, com passo bem seguro,
Na senda gloriosa e ardua do Progresso;
Vós, que haveis de lançar ao solo do Universo
A semente feraz da grande Idèa-Nova,
Deveis ajoelhar perante aquella cóva,
Que encobre veneranda a ossada do gigante
Que ha um seculo cahiu em lucta triumphante.

Ide!... ide ensinar ás gerações vindouras
Que ha paginas de luz que são immorredouras
Na historia das Nações!
Dizei a vossos filhos,
Que estão calcados já os gloriosos trilhos
Que hão-de conduzir ao fundo de seu peito
A força da Justiça e a força do Direito!

 

II

A noite tenebrosa, a noite dos horrores,
Estendia feroz as suas negras cores
Sobre a Europa abatida e sobre a terra inteira;
Apenas o clarão sinistro da fogueira
Illuminava a custo aquella triste scena;
Sentia-se um rumor como o rugir da hyena,
Havia um cheiro forte e acre e nauseabundo
Subindo em espiraes pelo azul profundo;
A carne a crepitar!.. Os gritos lancinantes!..
Como orgia infernal de velhos Corybantes!

Uma sombra indecisa, impavida e soturna
Fluctuava ali á viração nocturna;
Era a sombra do Mal--o negro pavilhão
Que tinha escripto em sangue um lemma: Religião!
E sobre cada corpo, e sobre esses destroços.
Conjuncto informe e nú de carnes e de ossos,
Andavam a pairar abutres esfaimados,
Despedaçando ainda os membros trucidados!

Humildes, evocavam o nome de Jesus,
--O nome da Justiça, o explendor, a Luz;
Traziam n'uma mão um velho Breviario;
A outra segurava o facho incendiario,
Um Christo sobre o peito, aos hombros uma estola...

Era a turba feroz dos filhos de Loyolla.

Portugal acordou, emfim, do seu lethargo;
Esgotára de todo o calix mais amargo.

Um homem, um gigante, um genio portentoso
Erguera-se de pé, n'um brado poderoso,
E disse sem temor áquellas turbas vis.

«Hyenas! recolhei ao fundo dos covis!
Largai a vossa presa, oh tigres sanguinarios!
De joelhos, chacaes! malditos salafrarios!
Hei-de lavar com sangue o sangue da Innocencia,
Matar-vos como cães, matar-vos sem clemencia,
E arrojar, porfim, ás fauces do abysmo,
Os vossos corpos nús e o vosso Fanatismo...

«A verdadeira Fé succede à Hypocrisia;
A Noite terminou, reaparece o Dia!»

E o braço poderoso e forte de Pombal
Arrebatou da treva o velho Portugal,
Para lançar a Luz, para lançar a Gloria,
Sobre elle, que era só recordação na Historia.

Exhausto e abatido ao sopro da desgraça,
Vergado ao Fanatismo--esse tufão que passa
E tenta destruir os brilhos da Rasão--
Sentia emmurchecer na sua heroica mão
Os louros que colhêra ao sol de cem batalhas.
Calára-se o canhão; o fumo das metralhas
Ja não tostava a tez aos bravos defensores
De Diu e de Malaca!
Esses conquistadores
Que tinham offuscado o nome de Veneza,
Que tinham concebido a audaciosa empresa,
--Na febre do valor, febre de triumphar,--
De avassalar a terra e submetter o mar;
Esse povo de heroes, titanico, indomavel,
Que dera ao mundo leis e fôra inconquistavel,
Já não queria colher da Heroicidade a palma.

Elle cuidava só... na salvação da Alma!

 

III

As gloriosas naus, as naus conquistadoras,
Que levavam no tópe as quinas vencedoras,
Traficavam agora o oiro, os diamantes,
O topazio, o rubi, os limpidos brilhantes,
Que outr'ora o Oriente e hoje o Novo-Mundo
Lançavam sem cessar do seu ventre fecundo!

E todo esse thesouro, e toda essa riqueza,
Era p'ra abastecer a perdularia meza
D'essa turba fradesca--a turba de vadios,
Que não passavam fome e não passavam frios,
Emquanto cá por fóra os tristes proletarios,
Famintos, rotos, nús, sem pão e sem salarios,
Iam implorar ás portas dos conventos
As migalhas servis dos fartos alimentos!

Um rei fraco, imbecil, um rei dissipador,
Assim, à imitação do Rei--Inquisidor,
Lançava essa riqueza aos tigres de roupeta,
Que tinham branca a face e a Consciencia preta.

Em vez de edificar escholas e hospitaes,
Surgiam contrucções athleticas, brutaes,
Que erguiam ao Azul, ao seio do Infinito,
As torres collossaes, gigantes de granito.

 

IV

Pombal surgiu, emfim, e encetou a lucta,
Heroica, gigantesca, audaz e resoluta,
Que havia de firmar a nossa autonomia,
E á Europa mostrar que era chegado o dia
Em que, aniquillada a negra Reacção,
O velho Portugal tornava a ser Nação.

A Industria floresceu e a Arte resurgiu;
O commercio acordou; de novo se cobriu
A vastidão do mar do nosso pavilhão,
Que ia transplantar a Civilisação
E levar aos confins de todo esse Universo
O nome Portuguez, extincto e submerso!

Depois, deixando assim firmado com ardencia
O acrisolado amor da nossa independencia,
Esse homem genial, espirito gigante,
Lançou o seu olhar ainda mais distante:
Reformou a Instrucção--o foco da Verdade
Que póde approximar o Genio á Divindade.

Um dia--horrivel dia!--um rude cataclysmo
Lançou uma cidade ao seio do abysmo.
D'essa terra gentil, que se chamou Lisboa,
Só restava um montão que fuma e se esborôa!..

Pouco tempo depois erguia-se imponente
A nova capital, mais bella e mais ridente...

Calêmos-nos agora!.. Ha-de-se admirar!..
Porque a nossa razão não sabe explicar
Gomo é que um braço sò podesse, sem canceira,
Alevantar do pó uma cidade inteira!

 

V

Injusta muita vez, a Critica, ingloria,
Quer negar-lhe um logar no pantheon da Historia,
Chamando-lhe cruel, carrasco de mil vidas,
A elle, que remiu as raças opprimidas,
Que deu à escravidão a carta de alforria,
Apontando ao Porvir da Liberdade o dia!

E se elle teve, emfim, manchas ensanguentadas,
Tambem o sol as tem, que ficam offuscadas,
Pela irradiação da sua luz brilhante...

Está limpo o pedestal da estatua do gigante!
Elle foi da Justiça o braço vingador,
Como depois na França os homens do Terror.

Saudai-o Mocidade! Um brado bem seguro,
Apostolos da Luz, videntes do Futuro!
Vós, que saudastes já o genio de Camões,
Erguei-lhe um monumento em vossos corações.
É justo que façais dupla consagração:
--Ao genio da Epopeia e ao genio da Instrucção!

Valença, 8 de Maio de 1882.

 

 


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