ADELAIDE


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aurora


AURORA BOREAL AO SUL

Poemas por Manuel Neto dos Santos

 

1

Recrio os lugares;
Como o pintor barra a tela com as cores da espátula, camada após camada; o horizonte e a paisagem têm o mesmíssimo grave e místico palpitar do silêncio.

2

Peço-te que vivas em mim, tu, tudo o que não sei mas pressinto na única certeza que virás. Peço-te que vivas em mim; como um regato desliza ao logo do rochedo e no gélido pego se derrama, no singelo frio que faz.

3

Desenhei, na sofreguidão das cores, no tumulto do sonho e tudo, em meu redor, foi um remoinho de azáfama da existência. Derrubei caules de amizades e de certezas... ergo, agora, a humildade do dia claro que, aos pés da sóbria lucidez, deponho.

4

Deixássemos nós fluir, da ponta dos dedos, os gestos, as carícias dedilhando a demora de uma ausência maior... e tudo à nossa volta desabrochava como um terreno baldio, ao Sul.
Deixássemos nós fluir, na gaiatez de um sorriso, na cumplicidade das horas que já não são dia e ainda não são noite... e seríamos um e apenas um; eu mar como se fosse céu e tu céu como se fosses mar e seríamos, meu amor, a imensidão do azul.

5

Desprendem-se memórias como as folhas outonais se despenham dos ramos, pelo murmúrio da aragem. Não caem por inteiro, na rígida verticalidade da insegurança, antes oscilam no tremular da sensualidade, sobre a epiderme do espaço.
Desprendem- se as memórias, como estrelas cadentes que há muito já não existem...
Ainda de pedra e cal, a última certeza de nós dois, que persiste; vívida como dantes; o nosso derradeiro abraço.

6

Não te escondas atrás do sofrimento; deixa raiar, em ti, o dia ainda tenro, ainda imberbe, como sobre as pétalas da rosa a luz do meu país ao Sul desenha os espelhos onde a aurora se descreve.
Vem a terreiro da tua alma, na oferenda mais sublime da amizade, pois que a dádiva maior é sermos “nós-nos-outros”. Por isso, é so por ti que, em mim, reparo nesta passage pela vida; tão sublime e breve.

7

Suspendessem todos os pássaros o voo prometido...
Regressassem à nascente toods os rios...
Suspirassem todos os vendavais...
E dir-te-ia que não te amo.
Ris-te?
Por ti, todas as metáforas
Nunca serão demais.

 

8

O amor tem relógio próprio;
Nem de sol, nem suisso.
Contam-se as horas, os minutos, os segundos pela ausência.
Descobre-se a eternidade pelo primeiro amor, o verdadeiro, na adolescência.

9

Prouvera deixar a voz da minha alma na epiderme dos lábios do meu povo...nesse gesto quase ainda-não, na hesitação do olhar com que te vi a primeira vez. Deixar a minha alma tal como as folhas se despregam do céu do arvoredo... e bastar-me-ia que murmurasses o meu nome e desnudar-me- ia de silêncio; amar-te-ia desconhecendo o que era o medo.

10

Falo, hoje, de mim fazendo o caminho inverso. In versus, redescubro-me inseguro, incerto se valerá a pena falar de mim. A ostensiva nudez pode revelar- nos a estopa da vergonha. Rio-me do poeta. Do tempo alucinogéneo do sonho porque todo o sonho não passa da mentira mais fingida. Regresso-me e não me conheço... falo, hoje, de mim como se não fosse eu o que o desencanto foi a maior esperança que a vida me ofereceu.

 

11

Morre-se por aqui, na letárgica maneira de um pássaro sem interesse pelo voo. Sustentamo-nos do ar rarefeito, na raridade do sonho possível de um oceano que espera ser desvirginado pela quilha da descoberta. Morre-se por aqui. É todo um país que esgravata a pátria lodosa do silêncio... todo um país em mim; como braço de um náufrago e a alma escancarada e muda, sem um grito, aberta.

12

Começo pelo que menos importa em tudo o que nos importa. Um voo de ave, de fugida, visto pelo cnato do olho... eis e ternidade dos brevíssimos intantes... o resto, o resto, meus amigos, um poema ainda escorrendo o sangue, flagelado; mumificado em letra morta.

13

Avulso e marginal, todo o meu canto é disperso, pois que o ruído de um verso é sinfonia, afinal.

14

Uso o fruto, no usufruto da demora; o fruto é a flor em plena aurora e a madrugada o som que, ao longe, escuto.

15

Deixem-me lançar ao mar os barcos floridos rutilando candeias... são os meus sonhos, mortos, que inventam, no ludo do céu, o som carpideiro de imensas luas cheias.

16

Eis a dimensão exacta da surpresa; a barreira transposta sem que o saiba. Há um negro surrealismo todo a babar- se de luz como a montanha em degelo. Eis a dimensão exacta da surpresa; como se a vida nos viesse dar bofetada e nós apontássemos para os óculos que não temos... eis a dimensão exacta da surpresa; a de nos fazermos pela arte e pela arte ouvirmos a cidade como se de um búzio vazio se tratasse.

Esboço-me, a tinta da china, e o pranto dilui- me como se fosse uma aguarela em viuvez... eis a dimensão exacta da surpresa; sou uma sombre sem objecto, uma e outra vez.

17

Ando por dentro de mim como se andasse dentro de uma sala às escuras. A amplitude nocturna das coisas relembram- me cidades desertas e praias sem peugadas sob o toldo estrelado da abóbada celeste... ando por dentro de mim com um ar de espanto, como o luar a encher o jardim, como se todo ele fosse feito de afecto. Ando por dentro de mim, como se os nomes reais fossem canções à espera de uma voz ou uma vida afogada na poesia, para que seja insólito e distinto e meu semblante e um sortilégio de luz os salões sem mobílias. Ando por dentro de mim como se fossem breves as manhãs e tudo quisesse ser, em demasia. Rasgo janelas nas muralhas e o frio irrompe como um abraço ou uma entoação em busca de um suspiro. Ando por dentro de mim, como pelas franjas das arribas ou as lambidelas de incêndios... com o único propósito de, num milagre avulso, me reencontrar; em pleno dia.

18

Deixarei as palavras para outra serventia que não a dos poemas. Um dia destes, falar-te-ei deste vício de ser feliz sem o saber, como a frescura da sombre em pleno Agosto, como a suavidade do cetim e os olhos a transbordar de paisagens. Soletro as vozes interditas e uso todos os meios para que o eco seja a luz, no seu retorno, sobre as paredes caiadas, ao Sul...
Deixarei as palavras para outro destino que não seja o verso. Uma noite destas, pedir-te-ei segredo sobre tudo o que não disse nas entrelinhas, como um espelho aguardando a tua imagem, para que nos chegue o repouso das horas inquietas, perante o vulcanismo da alma alagando, de lava, tudo o que nos lava o desespero. Deixarei as palavras par outro desígnio que não seja a insularidade das estrofes... retratar- me-ei num verso alongado, como ínsula, tesoura do sonho talhando um rasgo no imenso oceano da agonia. Um destes meios-dias, erguer- me-ei para lá das palavras como destino possível, para lá da curva do caminho.
Serei tudo o que quiser. Não te dizia?

19

Falar- te- ei das cartas escritas mentalmente no envelope da solidão. Sou o remetente indeciso ao canto inferior direito, por escrever a mim mesmo, no mergulho raso, de alma, ao rés do chão.

20

Retrato-vos um poema cabisbaixo por dentro do sangue, como pausas entre os passos de um mendigo espreitando ao postigo do momento. Retrato- vos um poema, extramente caligráfico, por dentro da água interior dos nomes. Digo- vos “madrugada” e os ossos iluminam- se, como vielas por onde a criançada inunda de gritos a correria estridente para que a alegria se faça anunciar. Retrato- vos o poema... mas convém que o não contempleis de frente; é bruxaria.

21

Desfaço os degraus para que a alma se eleve a pulso... apago um rosto de silêncio para que o perfil das pequenas glória reavive as faces do traço sinuoso dos caminhos. E trato-vos por “irmãos” vós, os tresloucados, com multidões dentro dos sentidos... e mesmo assim, tão anónimos, tão sozinhos.

22

Deixa- me avivar- te as flores desbotadas do teu riso, como se tombassem flocos de neve nos carreiros espartilhados entre valados. A montante e a juzante de mim, sangra a noite numa clausura de palavras onde permanence, ainda agrilhoado, o poema. Deixa- me avivar- te a rosácea do espanto para que o sol te trespasse pela primeira vez... pois que partir é renascer na cadência dos sons, no marulhar das marés.

23

Quanto a tudo; estamos conversados. De nada vale acrescentar o que seja a tudo o que já seja.
Falemos, pois, do brilho inicial e dos deuses antropófagos que comem os poetas de bandeja... quanto a tudo; estamos conversados. Que valia poderá, ainda, ter no coração uma cotovia que nos chame à oração ao final da tarde? Quanto a tudo; estamos conversados.
Que a lua, atrás da cumeada, nos vem dizer que irrompe, que ainda arde.

24

Empresto o corpo à pira das palavras, no acto pagão de adorar a subtileza da noite. Inundam-se-me os sentidos e a modulação dos vacalizos do silêncio escorre ao longo do corpo, como suor salgado de lágrimas. Empresto o corpo à sagração das paredes sem sombras pois que a noite é, ela mesma, a sombra-mestra.
Estalam- se os momentos como campos gretados pela secura... empresto o corpo pois que é de mim mesmo que ainda ando à procura.

25

Falar-te- ia do espaço entre os dedos quando acenamos adeus. Nos nossos olhos existiria o movimento suave do grão de trigo caindo de uma espiga... iríamos, por aí, sem destino algum que não fosse o desejo de partir.
Entender-me-ias nos meus silêncios criadores de um poeta em desespero; sentar-nos-íamos no degrau do nosso sorriso, como os velhos que mendigam o sol à porta de casa, indiferentes ao vento friorento de Fevereiro. Falar-te- ia do que sabes na mútua tragédia deste sonho, para que me entendesses, agora e sempre, como teu irmão de alma, e companheiro.

26

I

Vem, perturbar- me ó subtil equilíbrio de uma imagem. Traz- me, de volta, essas minúsculas sílabas de luz como se a liberdade fôssemos nós, desatados, mas pelo avesso. As mãos como se fossem rochedos. Diz- me, tal como me dizias em silêncio, que ainda te recordas dos pequenos pedaços de conchas ao longo do mar, lembrando dentes de crianças. E os meus versos serão curtos, sincopados, como um punhado de areia que se escapa por entre os dedos.

II

Unidos pela luz, pela sombra, pelas mãos, pela água... sustentamo-nos de vazio e fragmentamos os gestos, para que se desenhe em nós o espaço lembrando cidades apenas, ainda como esboços...

III

O grito que não volta, é a pedra que lancei no buraco negro dos poços.

IV

Interceptamo- nos na coincidência das palavras por que há universos siameses em nossas almas; é o nossão cordão umbilical que amarra a lua à pedra do caminho.

27

Convém que sejamos imensos, como o infinito.
Convém que façamos memoriais evocando a ausência da poesia...
E que tudo se estilhace e permaneça como luz incerta e anémica, ao final do dia.

28

Trazem, de rastos, a poesia; a existência no plano do espírito, como se uma labareda de sonho esfriasse perante a repulsa visceral dos dias. Desenham patamares de renúncia e tudo se estratifica como estantes, prateleiras, onde, dos livros, apenas resta a poeira do tempo e o desassossego da alma... nada mais, apenas as dedadas como indícios de que a vida passou por aqui... trazem, amortecidos, os sentidos na transfiguradora ausência de um rosto magro e olhos esbugalhados como calices de ondea vida passa a ser ser/vida.

29

Há pessoas esquivas, como versos que não chegam; bichos medrosos que nos bufam de longe, com medo que lhes retratemos a alma. Há pessoas esquivas, com imagens de lascívia ou divindades a lembrar as grades da prisão... penso nessas
pessoas, nesses versos. Solitariamente sozinho, eis- me aqui, e elas, onde estão?

30

Salvem- se os náufragos, uns aos outros. Lancemos braços nas extremidades das quais, como promontários sacros, existem mãos abertas e dedos dispostos a salvar.
A vida?
Este oscilar espumado e feroz. Salvemo-nos, pois, mutuamente, que existir é descoberta diária a recorder- nos a sepultura do mar.

31

Por muito que descreva as claras madrugadas, viver por aqui é um desconserto de tudo o que contemplo.
Viesse Cesário sentar- se a meu lado e o redor mostrar-se-ia tão primitivo como no início dos dias.
Por muito que descreva o Amor, amar por aqui é um soneto de Espanca a rir- se, por detrás das mãos, do tragico fingimento de nos suicidarmos no dia em que nascemos...
Já não descrevo nada...
Vejam como esvoaça, da minha alma, um corvo... como se fosse o clarim da madrugada.

32

As palavras são as galdérias de todas as esquinas. Cruzam a perna no convite ao poema e é pela nesga do que não dizem que nos indicam o quarto bafiento de uma pensão; o verso inicial.
Depois... lavamo-nos, secamo-nos em toalhas manchadas de outros sonhos. Saimos e enfrentamos, como numa pega de caras, o mundo. Olho sobre o ombro; nem me lembro se paguei o aluguer à solidão.

33

José (Escada), também sobre o meu ombro pousa um pássaro que me debica os lábios. A ave que, em surdina, me beija de ternura é a desse coração envolto em penas, na penas do meu voo por não saber ainda quem, de facto, sou. As penas, José Escada, amigo “passarófilo”... ainda ando à procura.

34

Tragam- me a dimensão maldita dos lugares que existem só por si. Façam-me que os possa vir a ser; em revoadas, sem aviso, como se fosse pó.

35

Perco o meu nome pelo país adiante, com a rapidez com que as chamam devoram e se alimentam das agulhas dos pinheiros. Há estalidos de mim, o calor fugaz e a brevíssima luz a anunciar a neve,ainda morna, das cinzas... perco o meu nome pelo país adiante, como por cidades estranhas onde deixei os passos dos quais nem o empredrado se recorda. Elevam- se os pinhais, como punhais, para que todos os sonhos se recolham, à hora do ocaso, nas grutas dos meus olhos, como morcegos videntes trazendo, de todas as coisas, as asas recolhidas nas pregas do silêncio. Perco o meu nome pelo meu país adiante, como pelo labiribnto de sebes de cameleiras deixando cair por terra, do regaço da verdura, o milagre das rosas desfolhadas.
Arrecademos, pois, o regresso do meu nome como se fosse as fontes de onde nascem todas as palavras...para que descreva, no céu, o incêndio-mor, chamado entardecer.

36

Fosse eu inume ao sortilégio de um puro coração... e ser-me-ia bem mais leve o fardo de existir.
Fosse eu inume ao bruxedo do exílio por dentro... e salvar-me-ia da miséria da vida, como rodapé da existência.
Fosse eu inume às dádivas do espanto perante; sortilégio, bruxedo e miséria...
E não sofreria tanto.

37

É pela raiva que tento conquistar o destino, o lugar que me é merecido. Olho a vida como morrão de cigarro... e rio- me que nem um perdido (à socapa), rio- me até às lágrimas... mas de ouvido.

38

Jamais serei poeta de roupão e de pantufas; antes botas de cabedal ressequido, com esterco de pássaros colado à sola... pedem os outros os louros, eu peço aos dias uns parcos versos, por esmola.

39

Há um ponto de vista na cegueira nas letras cabisbaixas dos doutos onanistas do meu país. Ah, prefiro mil vezes, pelo olhar, o prazer ejaculatório, de me rever num campo lavrado e de me sentir raiz.

40

"A PULGA DE SÓCRATES"

I Ó supremo e magistral desígnio de ser pulga neste país; uma mordidela e eis- me nos anais da História... ó supremo e magistral desígnio (dos dípteros "salteadores" parasitas do homem e de outros animais, que pertencem ao grupo dos suctórios e que são agentes (e no cu lá dores) de algumas graves doenças... II SALVÉ, Ó PULGA DE SÓCRATES!! testemunha dos "selfies" ridículos e parolos em frente à porta da cadeia, como se fosse junto ao templo de Diana... salvé, ó pulga! bafejada pela sorte de ter partilhado a choldra com ele... Qual Antero, Espanca, Natália, Sophia ou o tal Camões; meros e insignificantes mortais perante a tua "realeza" de seres pulga, sim pulga maiusculada. Salvé, ó pulga, endeusada como na antiguidade clássica as estátuas em festivais de Maio... III ó supremo parto do texto jornalístico, do pasquim diário que, pela manhã, alastra a pátria de ponta a ponta que aponta as tragédias de " faca e alguidar!... ó magistral libertação da verve da prisão de ventre do escrevinhador...

IV Hossana! Haja pulga atrás da orelha da " cega, surda, muda" apelidada de JUSTIÇA... haja pulga nos bancos; novos, velhos, de segunda mão da feira da ladra e do ladrão, e nas cadeiras dos magistrados, e nos camarotes régios desportivos em " black out " de verdade... V Salvé, ó pulga eborense, que nos redimiste da futilidade dos dias e deste bússola, como bufa enfunando as velas da caravela da corrupção... O Régio que se lixe... que este povo só vai por onde a " carneirada" for. A Eufémia (parideira) que se não tivesse posto em frente da metralha de um bronco e de bigode até aos joelhos... só por exigir o que era devido a um povo... VI ó supremo e magistral desígnio de ver nas alvas pernas de Sócrates as tuas cagadelas, como retratos fidedignos dos cérebro de tantos (de) puta (dos)!! Salvé, ó pulga maiusculada!! traz- nos, nos teus saltos acrobáticos, o ratio dos gráficos do défice, e a curva de mercado capitalista a dobrada; não à moda do Porto cerviz perante a " Merdakel"; espatilhada no fato de corte único, cortando-nos a fundo, na austeridade europeia de onde surge, às claras, o novo feudalismo do povos ao Sul.

VII Salvé, ó pulga de Sócrates, e não de um Coelho mais esperto que os ratos... que fugiu à época de caça da Segurança Social durante cinco anos... Salvé, ó pulga dedilhando nos pelos das pernas de Sócrates, a cítara e o fado da endémica ladroagem, e dá-nos, como CONSTITUIÇÃO, " A ARTE DE FALACIAR TODA A CELA"...

VIII Ó supremo e magistrado desvio em paraísos fiscais de que nos contas, ó pulga, enquanto nos sugas -bem menos que os governos- e nós, por aqui, envergonhados, coçamo-nos, sorrimos e dizemos: -É a histórica brotoeja.

41

I

Olhos secos, como as pedras, com o mar lá dentro no imbrincado de reflexos; como por dentro de galáxias existe o sistema planetário dos abismos. Olhos secos, como relógios parados, sem o tiquetaquedo coração com o único sentido e nexo primordial sem antes nem depois. Olhos secos, por muita que seja a chuva sobre os campos; olhos de estio, como epílogos extensos na última carta de um amor que nunca tivemos... os meus olhos, como pedras, que sonham ter a gravidade dos rochedos e a leveza dos remos.

II

Difusos devaneios, como é indeterminada a sensação de vazio; eis-me como derradeira alternativa de mim mesmo. Que nos mostra o sonho senão o verso do concreto, a face para o ordem geográfica de todos os sentidos? Ipsis verbis; os olhos como pedras para que vejam todos o rosto onde havia o sinal de ânimo, de elmos, grevas e de arneses... Olhos secos, como pedras; tantas vezes.

42

Existir; eis a premissa da épica respiração sob a influência dos deuses. Há forces-motrizes dos limites onde se divizam os caminhos a tomar, ao longo do poema. Existo e leio-te no contacto descontraído e lúdico, para que renasças em mim como ideia geral de tudo. Depois, repito a forma de te olhar assinalando em ti recorrências ou dúbios recantos do entendimento. Existo por me reconhecer, para salientar relevos nos “comos” e nos” porquês”. Existir; eis a premissa
De atmosferas poéticas... sem previsões para ao dia seguinte.

43

Sondo o interior da material poética, na hierarquia de emoções, como presence normative do alto sentido simbólico. No crivo do silêncio, ostento-vos o sonho postiço, como pepita, desfiando a destrinça dos gestos, desafiando o cascalho das horas, os seixos dos intantes...
Sondo, a superfície das formas pela íntima coerência e, todavia, à cabeça do poema, suspenso, continua ainda a guilhotina da demora, como visões distantes.

44

Mar interior; fruto das lágrimas pelas grutas de tenras memórias e anciãs tragédias de me ficar por aqui. Todos os polissíndetos de mim repicam e ecoam; e, e, e...
Olho as mãos e aqui estou; descontínuo nas rigidez das pirâmides.
Mar interior; fruto da morbidez sem tempo progressive par que os pontos se atinjam e os “nós” sejam apenas “eu”.

45

A pequena luzdo fósforo cria a brevidade das sombras como fénix renascida. Tudo nitidamente fantasmagórico e demoniac, como a melancholia descrita nos olhos vítreos dos pássaros. Sou como um poema bruxeleando, mas poema. Que importa pois morrer na humilde coluna de fumo...para que o breu do silêncio me adormeça no regaço?

46

Não me amedrontam os prados sem fim da Holanda; esse verde até perder de vista. Não me amedronta a planura meticulosamente cultivada... amedronta- me, sim, a inteira perdição de não atingir tudo... como uma fogueira pagã numa noite de Verão.

47

Meditemos, pois, sobre as razões da mudança como leitura de búzios ou de cartas, viciadas, nas aparas de papel dos dias varridos para um canto. Meditemos, pois, sobre as coisas simples e tenebrosas que a terra é enorme e apenas somos felizes no lugar que conhecemos. Meditemos, pois, no fervor alheio de olhos revirados na catárse de orações... Meditemos, pois. Se tens os pés na terra... e onde os pões.

48

Vasculho, ainda, as relíquias das folhas outonais. Como não tem chovido...ei-las hirtas, firmes enrijadas de étimas cores e rebordos de aço.
Vasculho, ainda, as relíquias de dias escaldantes... como qaundo dormia entre os teus braços; sem esperança nem cansaço.

49

Uma nódoa esbranquiçada como o sol mortiço num céu de Inverno, ou o sinal de prazer num lençol amarrotado... Há um aroma de cravos nos meus dedos ex- cravos de ti que todo o alcance das escadas de pedra me apontam o teu olhar, como um punhado de brasas. Tudo é comum; a palma da mão sem quaisquer linhas que não seja a linha do Sul que me transporta para os vinhedos nas arribas das falésias. A minha vida é uma mancha que se alarga, como os olhos húmidos, no sonho de engolir o mar por inteiro.

50

Se eu te falasse da palidez da madrugada, acreditar-me-ias?
Se eu te falasse dos alçapões que nos levam às galerias no útero da terra como se fossem vergéis dourados de margaridas e salpicos sanguíneos de papoilas, acreditar-me-ias?
Olhemo- nos, em silêncio, que em nossa alma crepita a poesia subversiva, para gerar o grito lacinante de um trovão...

51

As flores têm, na sua beleza, a ideia feliz de morrer em breve. Tal como eu, vagabundo ou descobridor de cidades... talvez fosse melhor nada disto ser par distorcer os cordames da memória, pela qual, ainda hoje, me invades.

52

Benditos sois vós, os bafejados pela obscura vida interior de inspirações repentinas, vós tendes a glória das derrotas e dos sacros impulsos.
Benditos sois vós, pelos círculos exteriores no epicentre da alma e nas paixões avassalantes de um suicídio por amor...
Vós tendes o desespero!
Benditos sois vós, malabaristas das palavras e frestas largas de tristeza a rir- se de si mesma.
Eis-me aqui, vosso coroador de árvores fulgentes; como dias de sol em demasia, intensos, para que os não olheis de frente.
Eu vos coroo com a persiana das mãos sobre os olhos para que vos devolva a visão e não cegueis pelo magnetismo da inércia que vos cola às paredes da nulidade...
Benditos sois vós, poetas meus irmãos, que ressuscitais de um cravo vermelho alagando de esperança um país à beira povo...cantando o novo sonho, pelas ruelas da cidade.

53

Volto sempre ao mesmo.
Como se uma música lancinantemente feliz disferisse a lança da tristeza.
Volto sempre ao mesmo.
Por ser um homem comum carregando, sobre os ombros, a pesada cruxificação, em vão, pela Língua Portuguesa.

54

Fica no rés do chão a minha cela. Onde aprisiono imagens e lembranças...
Do coração, sobe, ao piso da cabeça; a jovialidade dos poemas, como sobe, de dois em dois degraus, a algazarra das crianças...

55

Há rios baixos por onde se vislumbra o lodo.
Tal como em mim, mero lírico poeta, a disse/dessecar-me todo.

56

Passo noites e dias nos quartos da memória como em pensões, lisbonenses, ou espeluncas de bafio.
Venho às janelas dos nmeus olhos como se, por Março, se anunciassem as exéquias do frio.
Passo noites e dias nos varandins ao Sul; arranco os olhos da alma, lanço-os ao céu...
Percebem agora por que sou, constantemente (por dentro e por fora) todo azul?

57

Pudéssemos nós morrer de vez em quando, como quem faz a sesta após caracolada a um de Maio...
Regressarmos com os vapores da Sagres (neste mini país) no sangue e na falta de equilíbrio da passarela de Gusmão...
Pudéssemos nós morrer uma vez por outra para que aprendéssemos o verdadeiro sentido da vida mas... seríamos deuses... e ser deus não me apetece, não!

58

PORTUS CALE

I
(Açores)
Há corações fumegantes como as caldeiras das sete cidades. O meu... lembra um tabuleiro de xadrez onde a rainha se amancebou do peão. Corações fumegantes como o vapor das saunas nórdicas e os odores dos fogareiros a carvão.
Há corações de borralho...
De cinzas aindas mornas, sou um volcão extinto, meu amor quando retornas?

II
(Trás os montes)
Havia uma casa de pedra, sem portas nem janelas.
Achei que me encontrava sem saber, ao certo, ao vê-las por que era eu uma delas...

III
(Alentejo)
Sei dos meus poemas como sobreiros em carne viva e de todas as ralações do mundo; dos impérios (des) feitos em cacos e das ideologias como manteiga no focinho do cão, guardando o monte...
Sei dos meus poemas como o cante dolente e barroco por precisar da solidão e desconforto.
E se, por vezes, finjo estar dormindo... durmo envolto na samarra em pleno Verão; e digo-vos que estive “dormimorrendo” mas morrer, por agora, ainda não.

IV
(Algarve- po(r)lar)
Pintei, no céu, uma porta enigmática que daria, se tudo tivesse corrido de acordo com o projecto, a uns quantos lanços de escada que me levariam para salas que nunca existiram por si só.
Pintei, no céu, numa paisagem de leitura linear... e vejam, aqui ando eu às apalpadelas; detesto o vosso riso pernte o meu (des) norte:.
-Vejam, um poeta...tenham dó!!

59

Redestruo os lugares, como escultor que mutilasse as desproporções de David ou decidisse amputar do regaço da Pietá o cristo morto...
O horizonte e as paisagens têm o cereníssimo palpitar ensurdecedor dos minhotos arraiais, de um povo triste, ou das marafadas cigarras nos estevais... ali para os lados do Rio Torto.

s.b.messines
(7-1 a 4-3 de 2015)     

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