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CARIDADE

ALM No.94, October 2026

SHORT STORIES

Armando Sampaio

9/24/202611 min read

"Confessai as vossas culpas uns aos outros e orai uns pelos outros, para que sareis; a oração feita por um justo pode muito em seus efeitos." Tiago 5:16

— Não se preocupe, você será um bom pai. — Rafaela o acolheu, em meio aos gritos de crianças e latidos vindos do parquinho. — Eu tenho certeza.

A brisa carregou os olhos de Lucas para não sei onde (o rapaz preferia que ela o julgasse inseguro; o melhor seria, de fato, sê-lo), e a sirene de uma ambulância trouxe-os de volta à namorada — noiva, aliás. Como ela gostava de vê-lo sorrir! Talvez por isso ele não desistisse de fazê-lo.

— Mal posso esperar pra ter os nossos! — divagou Rafaela, com os pensamentos ainda no parquinho, e, menos aérea, sussurrou-lhe ao ouvido: — Logo, logo é hora de começar.

Ele buscou a mão da noiva — como era macia! —, beijou-a e protegeu-a junto de si.

— Cadê a jabuticaba?

Lucas virou-se e apanhou uma sacola que estava ao seu lado; Rafaela encheu a boca de frutas e suspirou:

— Um casal apaixonado, no banco da praça, comendo jabuticaba…

— Poesia ao vivo.

*

Quando visitava a irmã, semanalmente e sem falta, Rafaela encantava-se com os sobrinhos, seus afilhados; não se cansava de vê-los brincar, comer e mostrar os desenhos que faziam. Mantinha sempre de pé a oferta de olhá-los: — Vá pegar um cinema com o Renan; um motelzinho, quem sabe? — Esse gosto por crianças era tão intenso quanto recente, brotara uns dois anos antes, e a urgência com que o desejo da maternidade se lhe impunha era assunto frequente com Júlia, sua irmã mais nova. Esta, quando viu o anel de noivado, finalmente parou de torturá-la com o clássico:

— Não se preocupe, você tem tempo…

Outro assunto constante entre as irmãs era o silêncio de Lucas. Rafaela muito se doía com essa melancolia que ele carregava e tomou para si o dever de salvá-lo. Não encontrando, todavia, meios de fazê-lo falar, restava-lhe a caridade. Quando estavam juntos, ela procurava não pressionar o noivo, todavia, quando se encontrava com a irmã, o desabafo era garantido:

— Ai, sis, eu não sei o que fazer. Ele fica nesse segredo insuportável.

— Deixa disso, Rafa. — Acalmava-a a irmã. — Com o tempo, ele vai se sentir seguro pra se abrir.

Ainda no começo do namoro, assim que Rafaela ganhou intimidade com a futura sogra, Thelma, inquiriu-a a esse respeito. Para sua surpresa, descobriu que a pobre mulher sofria o mesmo exato castigo.

— Foi na adolescência — confessou Thelma à futura nora — que o Luquinhas adquiriu esse aspecto pesado, de quem sofre sozinho. Eu já implorei de joelhos, mas nem as lágrimas da própria mãe parecem bastar.

Instruída pelo psicólogo, Rafaela anotou o quanto pôde a respeito da vida pregressa do noivo, principalmente de sua relação com os pais, mas o profissional nada encontrou de particularmente traumático. Thelma era uma mulher simples, de interesses e preocupações genuínas, enquanto Orlando, o pai, era, verdade, um tanto irritante, e Rafaela aturava suas conversas sobre o Guarani mais do que as apreciava; Lucas, porém, não precisava de desculpa para ter com ele, e dele só falava com carinho. Os amigos viviam na mesma ignorância, apesar da abordagem diversa:

— É o medo de sair do armário, de o pai não aceitar. Quando era moleque, bastava o tio Orlando botar o pé na rua, que ele corria pro quarto e metia a peita da Macaca.

Vendo Lucas negar essa teoria (com veemência, aliás) e declarar sua devoção ao Bugre, Rafaela tinha suas esperanças renovadas — apenas para tornar a perdê-las assim que voltavam de Campinas. Ademais, a infinidade de hipóteses só fazia agravar a frustração; esta, cuidadosamente dissimulada com ofertas de conforto e proteção. Lucas conhecia e jogava o jogo.

*

No meio da semana, Lucas apanhou Rafa no trabalho. Abrindo a porta do carro, ela encontrou no noivo um sorriso e, no banco, um saco de jabuticabas.

— O pé tá inspirado este ano.

— Pois é — respondeu ele antes de cuspir um caroço pela janela. — Agora só me resta comer até dizer chega.

Como era de se esperar, a alegria da recepção foi de fogo de palha, e, antes de chegarem à pizzaria, Lucas já respondia a tudo com é, poxa, aham… Ela pegou a mão do noivo e a beijou, depois afagou-lhe o pescoço.

— Não dá pra ficar assim — desabafou, finalmente, quando o garçom os deixou sozinhos à mesa. — Eu não vejo como a gente pode ser feliz com essa… coisa, esse fantasma, esse abismo. Desculpa, mas eu já dei tudo de mim; se não é suficiente, não sei onde a gente vai parar.

Gentilmente, Rafaela retirou das mãos de Lucas o cardápio, revelando o rosto exausto do homem que amava.

— Eu tô contigo pro que der e vier, na alegria e na tristeza. — Quando Lucas ergueu para ela os olhos, ouviu: — Mas você tem que confiar em mim.

O garçom trouxe o vinho e tirou o pedido; quando saiu, o casal ficou preso num silêncio abafado que se arrastou por longos minutos.

— Você não vai falar nada?

— Eu vou ao banheiro.

Quando voltou, Lucas tinha o pescoço e as pontas do cabelo molhados, e os olhos mais vermelhos do que antes. Sentou-se e apanhou a mão da noiva, mas as palavras lhe ficaram entaladas na garganta.

— Pelo bem do nosso relacionamento — interveio Rafaela, deitando as mãos dele sobre a mesa. — Me procure quando estiver pronto.

Pegou a bolsa e saiu.

*

Rafaela procurou ocupar-se consigo mesma nos dias que se seguiram, tendo novamente no horizonte uma vida de trabalho, viagens e sobrinhos. Aproveitou o tempo livre na manhã de sábado para correr no parque e sentiu-se estranhamente leve sem o anel e o fardo ao qual este a amarrava. Não era o caso, contudo, que ela de súbito abandonava a idéia do matrimônio, ou deixava de amar Lucas, pois simplesmente se valia dos recursos disponíveis para terminar a semana.

— Esse tempo vai ser bom pra você, pros dois — afirmou Júlia, quando elas se encontraram, já de tarde. — Sempre que alguma coisa começa a atritar entre mim e o Renan, a gente passa uns dias sem tocar no assunto; às vezes fica um silêncio estranho, mas depois a gente conversa numa boa. É dar tempo ao tempo.

As palavras da irmã soavam distantes, como uma lembrança, abafadas pelos gritos das crianças que corriam e escalavam no parquinho; no dedo de Rafaela, vinha novamente seguro o anel, mas o sonho escapava-lhe, como a caçula, que se esgueirava para o trepa-trepa (expressamente proibido pela prefeitura e pela mãe até os oito anos).

*

Com expectativas mais modestas do que aquelas da pizzaria, Rafaela foi à casa do noivo; encontrou-o sereno e carinhoso, o homem por quem se apaixonara, e foi com ele catar jabuticaba nos fundos. A árvore era vistosa, antiga, e ofertava com orgulho sua fartura. Com a chegada do proprietário e seus cachorros, debandou-se a festa dos pássaros, e o céu se coloriu com penas e assobios. Rafaela imaginou que fosse recepção para o casal.

Rodeando a árvore e catando frutas, Lucas falou do trabalho, de suas finanças e da recém-adquirida televisão:

— Parece nova, só faltou o plástico!

Foi então a vez de Rafaela emudecer; Lucas concentrou-se nas jabuticabas. Ficaram assim por um minuto infinito. Acaso tinha ela ganas de coagi-lo desta maneira, ignorando ser o silêncio, para ela, e não para ele, terra estrangeira?

— Eu só quero ajudar — suplicou quando se rendeu.

Do outro lado da árvore, Lucas apoiou o antebraço num galho, a testa neste, e desabou a chorar; as jabuticabas que trazia numa vasilha esparramaram-se pelo chão. Rafaela apressou-se e o envolveu com braços e beijos. Era a primeira vez que o via naquele estado e não estava certa de contar o choro como progresso — o psicólogo lhe havia dito que sim, mas ela já não estava tão certa.

— Eu tô aqui pro que der e vier, mas você precisa entender a minha situação, a minha dor, o meu medo de me casar com alguém que se esconde, que não confia em mim. Não vou machucá-lo, eu juro. — Rafaela parou para respirar. — Mas, se você insistir nessa situação, vou entender que essa é a sua escolha.

Ela apertava o anel de noivado contra o dedo, pronta para arrancá-lo.

Ainda com a cabeça metida no braço, Lucas murmurou alguma coisa.

— Como é, meu amor?

— Crianças! — berrou, virando-se e segurando a noiva pelos braços. Vermelho e inchado, Lucas tinha as narinas escorrendo e a boca escancarada. — São crianças, Rafaela, crianças!

Ela ficou feito pedra, e o sangue desapareceu de seu rosto enquanto Lucas prosseguiu, com o fiapo de voz que vencia os engasgos:

— Todos os dias, Rafaela, nos meus pesadelos, no meio de uma conversa… as visões… o medo… medo de algum dia ceder à tortura e… — Lucas contorceu-se, apoiou as mãos sobre os joelhos e vomitou por cima as jabuticabas. Ofegante, ele balbuciava: — Um… monstro; não quero me tornar um monstro…

Rafaela recuou, e os cachorros os rodearam, ganindo baixinho.

Curvado, Lucas engasgava e tossia, e, entre mil coisas, Rafaela pensou que ele fosse morrer. Quando recobrou o fôlego, ainda arqueado e de olhos fechados, ele buscou a mão da noiva; ela recolheu-a, hesitou um instante, depois partiu.

Percebendo-se só, Lucas caiu de joelhos, soluçando: não se atentou aos cachorros, que lhe lambiam o vômito e a cara; ao carro batendo enquanto manobrava; nem ao portão, que ficou escancarado. Ficou ali, debaixo do pé de jabuticaba, em posição fetal.

Um por um, os pássaros voltaram, e a festa recomeçou.

*

Sozinha em casa, com seu filme e seu sorvete, Rafaela se arrepiava só de pensar em Lucas. Alcançou o celular e bloqueou o número do noivo — ex-noivo, aliás —; depois, arrancou do dedo o anel e o atirou para longe.

E se ele tocasse a campainha? Rafaela correu até a porta para certificar-se de que estava mesmo trancada — estava. Virou a maçaneta e puxou. Nada. Puxou com força. Nada. Chacoalhou o quanto pôde. Nada. Passou a correntinha e respirou fundo.

Quis ligar para a irmã, pedir socorro ao cunhado, mas teve vergonha, como se partilhasse da culpa pelo crime que o outro era tentado a cometer. Pensou nos sobrinhos, na frieza com que Lucas os tratava, e lembrou-se das vezes que o julgou inseguro quanto à paternidade. Quis rezar, mas não sabia. Apanhou na cozinha a maior faca que encontrou e voltou ao sofá.

Retomou o filme. Interrompeu-o e mudou-se para o quarto, que dispunha de outra TV e outra trinca; levou consigo o sorvete e a faca de churrasco.

Em algum momento, no meio da madrugada, o cérebro exauriu-se, e ela adormeceu.

*

Rafaela acordou pesada, viu as horas no celular, depois se virou e tornou a fechar os olhos. Teve sede, a cabeça doía. Levantou-se. Sentia-se fatigada, é verdade, aliviada, porém, por encontrar-se livre do castigo que a oprimia.

Foi almoçar na irmã, única pessoa neste mundo que queria ver. Uma vez em sua casa, preferiu não ir direto ao assunto — talvez por não saber por onde começar; talvez por não saber onde iria terminar —; resolveu agir como se nada tivesse acontecido e até pôs de volta o anel. Sentada à mesa da cozinha enquanto Júlia trabalhava nas facas e panelas, conversou sobre o clima, as eleições, Renan Pedro e o carro amassado:

— Bateram enquanto estava estacionado, só vi hoje cedo.

— Que chato, mas fazer o quê? É a vida — respondeu a irmã, dando de ombros.

A cozinha foi invadida por dois pequenos, que traziam suas obras de arte para apreciação.

— Vai com a tia Rafa, que a mamãe tá com panela no fogo.

Tia Rafa botou uma criança em cada perna e pediu-lhes que explicassem os desenhos. O menino adiantou-se e pôs-se a narrar a epopeia psicodélica registrada no papel, apontando personagens que iam de seu pai a um dinossauro que comia nuvens.

— Ai, que lindo! Posso guardar pra mim?

— Não! — exclamou o garoto, puxando o desenho. — É da mamãe.

— Fê, mostra o seu desenho pra tia — interveio Júlia.

A menina obedeceu e apresentou sua folha, que retratava uma casa e uma fila de homens-palito.

— Ó, esse é o papai, a mamãe, o Gu, eu e a tia Rafa!

— Essa sou eu?! Ai, que linda que eu tô!

Pelo menos ainda podia ser a tia no desenho da filha dos outros.

— Vão mostrar os desenhos pro papai — comandou a mãe, e as crianças pularam e correram.

Os gritos das crianças projetaram na mente de Rafaela a imagem de Lucas; ela estremeceu, depois chorou. Júlia secou as mãos, fechou a porta e puxou uma cadeira ao lado da irmã. Depois de um longo abraço, voltou ao fogão. Rafaela se recompôs e lamentou não ver futuro no noivado. Júlia baixou o fogo e veio afagá-la:

— É uma pena, mas faça o que for melhor pra você.

— Eu me sinto mal… ele sempre foi tão bom pra mim.

Júlia deu à irmã um tanto de silêncio antes de falar:

— Eu entendo que ele era muito carinhoso e fiel, mas você não prometeu nada, sabe? "Na alegria e na tristeza…". — Depois levantou-se e foi buscar um copo d'água. — Não se preocupe, você tem tempo.

Rafaela não pensava assim.

*

Dirigindo de volta, Rafaela desviou-se de seu caminho e, dando tudo de si para não pensar naquilo que fazia, chegou ao portão de Lucas; parado o carro, porém, esvaíram-se as forças. Tremendo, ela repetiu para si seu intento: — Vou entrar, terminar e sair… entrar, terminar e sair. — Jogou a cabeça para trás e relaxou. — Entrar, terminar e sair. — Ela admirou por um instante o anel de noivado, peça simples e de bom gosto; depois, meteu-o no bolso. — Entrar, terminar e sair. E, pronto, liberdade.

Liberdade para quê? Arranjar outro noivo? E se o outro fosse igual? E se fosse pior? E se não existisse? Caso decidisse ficar, conseguiria perdoá-lo? Perdoá-lo pelo quê? Por revelar-lhe o segredo que ela exigira saber? Ela mirou o celular no porta-copos; seria tão fácil mandar uma mensagem, largar o anel na caixa do correio. Em poucos segundos, ela mordeu a mão, pisou na embreagem repetidas vezes, agarrou o volante, mordeu o lábio, tomou fôlego e desceu do carro.

Diante do portão, Rafaela hesitou um instante, olhou uma última vez o celular e tocou a campainha. Os cachorros vieram correndo e saudaram a conhecida visita; ela viu, através das grades, o carro de Lucas. Tocou de novo a campainha. Tentou ligar diversas vezes, sem sucesso. Agarrou as grades e principiou erguer-se, mas, à visão das lanças, abandonou a empreitada. Virou-se e varreu a rua com os olhos — esperava encontrá-lo atrás da lixeira?

Um carro dobrou a esquina. Ela pensou em pedir ajuda — que tipo de ajuda, para invadir a casa? Quando o carro desapareceu, ela tornou a subir no portão. Chegando ao topo, estudou com atenção as lanças e rascunhou uma estratégia antes de continuar; apoiou as mãos entre as lâminas e estendeu os braços; antes que o ferimento a dominasse, pisou no topo e saltou.

O braço cortado doeu, mas a torção do tornozelo ao cair foi pior; jogada no chão, com o cabelo esparramado sobre o rosto, Rafaela chorou. Os cachorros vieram consolá-la.

— Sai!— Tentou levantar-se, mas faltaram-lhe as forças. Caído do lado de fora, o celular jazia todo trincado; as barras ao pé do portão eram cerradas demais para que conseguisse apanhá-lo. Finalmente, a imagem do braço ensanguentado lhe inspirou celeridade.

Mancando, Rafaela chegou à porta da frente e a encontrou trancada. Bateu. Nada. Chamou. Nada. Agarrou a maçaneta e puxou com força. Nada. Chacoalhou o quanto pôde. Nada. Espiou através da janela e viu o sofá, a TV nova ligada no jogo do Guarani e a mesa cheia de papéis. Passando à janela do quarto, achou-a quase cerrada pela cortina, mas conseguiu ver a cama bagunçada e vazia; sobre o criado-mudo, um retrato sorridente do casal.

Aos ganidos, os cachorros iam e vinham entre Rafaela e o quintal — ela lembrou-se da porta de trás, freqüentemente largada aberta —; seguiu-os. Foi volteando a casa, sempre guiada pelos cachorros; ia mancando e deixando na parede um rastro de sangue. Chegando ao fundo, suas pernas vacilaram, e Rafaela caiu, de olhos fixos em Lucas, que, rodeado de pássaros, descansava enforcado no pé de jabuticaba.

Armando Sampaio de Rezende Neto grew up in Grande São Paulo, Brazil, between the massive sky scrapers and the rain forest. Now he lives in the desert of New Mexico, taking care of a baby and working as an Engineer during free time.

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