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NAS ASAS DE UM PORCO

ALM No.95, November 2026

ESSAYS

Santiago Moreira da Silva

10/22/20263 min read

“Rumo às estrelas nas asas de um porco.” Foi o que Steinbeck respondeu a um professor que lhe dissera que só seria escritor quando os porcos voassem. Pensando bem, talvez não haja melhor destino para um escritor. Afinal, escrever é também partir em direção ao improvável, em direção àquilo que não conhecemos, ou ao que inúmeras vezes pensámos conhecer. Ao dizer “Rumo às estrelas nas asas de um porco”, Steinbeck não se limitou a utilizar o porco como meio para exprimir a sua ironia. Fê-lo também para deixar bem claro que se recusa a aceitar que alguém possa decidir até onde pode chegar a sua imaginação. E faço das suas palavras as minhas.

Entre quem escreve e quem lê existe um espaço estranho. Podem separá-los séculos e, ainda assim, encontrarem-se numa mesma frase. Talvez por isso continuamos a ler homens mortos há centenas de anos como se, por alguns instantes, estivessem sentados à nossa frente. É por isso que se escreve: para alguém ler. Talvez na esperança de que, do outro lado, alguém encontre valor naquilo que escrevemos.

A literatura é, para mim, um espaço livre, tanto que, de séculos a esta parte, tem servido vários fins. Um espaço que é tão estranho quanto familiar, tão positivo como pessimista, tão frio e fundo como quente e pleno. Um espaço que é dado como compreendido, mas que considero amplamente desconhecido. Um espaço imaginário que, para mim, só pode ser compreendido por quem não o compreende. A felicidade de ler, escrever, estudar ou avaliar um livro reside na incompreensão do mesmo, reside no caminho que percorremos tentando interpretá-lo. A felicidade do autor, por exemplo, não reside na publicação do livro, nem na sua consequente venda. Reside na escrita do mesmo, no caminho que o autor percorre ao esboçá-lo, ao desenhá-lo. Reside, no fundo, em dar vida a algo por meio de palavras. Esse caminho, para mim, é o mais perto que conseguirei alguma vez chegar de uma definição adequada da literatura.

Tomemos, por exemplo, a perfeição: nenhum ser humano consegue ser perfeito. No entanto, a cada dia que passa, o ser humano tenta aprimorar-se, e é nessa intensa busca por ser perfeito que se vivem os melhores momentos das nossas vidas, se conhecem as melhores pessoas, se partilham as melhores experiências, se sentem as mais puras alegrias. É nessa procura que vivemos. Nunca é sobre a conclusão a que se chega. É sempre sobre o caminho que se percorre enquanto se tenta chegar a ela.

Poderá também partilhar o mesmo motivo o facto de tantas das grandes obras literárias serem, no fundo, histórias de procura. Pouco importa que aquilo que se procura seja um peixe, como em Hemingway, um sentido para a existência, como em Camus, ou uma simples resposta a um problema comum. O objeto da procura é quase sempre menor do que aquilo que acontece a quem procura, enquanto o faz. Em O Velho e o Mar, de Hemingway, Santiago pode regressar à costa sem aquilo que tanto procurou e, no entanto, não voltar de mãos vazias. Há derrotas que dizem muito mais sobre um homem do que vitórias, porque aquilo que verdadeiramente conquistamos nem sempre pode ser trazido connosco.

Talvez o leitor também não seja assim tão diferente. Também ele parte sem saber exatamente aquilo que encontrará. Ao abrir um livro, nunca sabemos o que nos espera. Estamos, assim, a iniciar uma aventura. Podemos procurar uma história e encontrar uma ideia. Ao procurar essa mesma ideia, quem sabe, podemos até encontrar uma pergunta. Não encontramos necessariamente respostas. Encontramos, muitas vezes, melhores perguntas. É nesse sentido que a literatura resiste à definição natural. E cada tentativa de atribuir-lhe uma conclusão fechada parece retirar-lhe aquilo que a torna em si mesma: a imaginação.

E se escrever for, então, aceitar uma viagem cujo destino é incerto? O escritor escreve sem saber a quem chegará, o leitor lê sem saber aquilo que encontrará, e ambos avançam na esperança de que, algures entre uma frase ou outra, alguma coisa aconteça. Afinal, Steinbeck pode ter razão desde o início. Não é necessário que os porcos tenham asas para chegar às estrelas. Basta que alguém seja capaz de imaginar que podem voar!

Santiago Moreira da Silva, 16 anos, é estudante de Línguas e Humanidades em Vila Franca de Xira, Portugal. Interessa-se por literatura, filosofia e escrita ensaística e tem participado em iniciativas de intervenção cívica juvenil.

Santiago Moreira da Silva, 16, is a student in Vila Franca de Xira, Portugal. He is interested in literature, philosophy, and essay writing, and has participated in youth civic engagement initiatives.

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