O HOMEM QUE PRECISOU MORRER
ALM No.95, November 2026
ESSAYS


Em O Homem Bicentenário, Isaac Asimov conta a história de Andrew, um robô que, ao longo de mais de duzentos anos, constrói para si uma existência que pouco a pouco se distancia daquela para a qual foi criado. Ele cria, pensa, trabalha, acumula bens, estabelece relações, forma uma família e desenvolve uma identidade própria. Em determinado momento, parece difícil dizer o que ainda lhe falta para ser considerado um homem.
Ainda assim, para os outros, continua sendo uma máquina. Talvez seja justamente aí que esteja a questão mais interessante da história: Andrew não parece precisar tornar-se humano, mas ser reconhecido como tal. Sua busca não é apenas por liberdade ou por uma vida própria, mas pelo direito de ser visto como alguém, e não como um objeto. Em um mundo que se recusa a reconhecer sua humanidade, é possível dizer que Andrew é realmente livre?
Andrew passa boa parte de sua existência conquistando coisas que associamos à condição humana. No início, ele é aquilo para que foi criado: um robô doméstico, capaz de executar tarefas para seus donos. Aos poucos, porém, começa a fazer escolhas que não parecem pertencer à sua função original. Desenvolve capacidade artística, cria objetos, trabalha, acumula dinheiro e conquista o direito de possuir aquilo que produz. Mais do que isso, constrói relações, recebe um nome e passa a ter uma história que é somente sua. É nesse processo que Andrew deixa de ser apenas uma máquina que executa tarefas e passa a ser alguém com desejos e interesses próprios. Talvez a arte seja um dos primeiros sinais dessa transformação. Andrew não apenas passa a ser capaz de construir objetos; ele começa a criar algo que existe porque ele próprio decidiu que deveria existir. Há uma diferença entre executar uma tarefa e produzir algo que expressa uma escolha pessoal. Sua habilidade artística revela justamente isso: Andrew não está mais apenas cumprindo uma finalidade para a qual foi programado, mas colocando algo de si naquilo que faz.
A partir daí, sua trajetória parece seguir um caminho quase natural. Ele busca um nome, uma profissão, propriedades, relações e uma família. Cada uma dessas conquistas o afasta um pouco mais da condição de objeto e o aproxima daquilo que entende como uma vida humana. O curioso é que, quanto mais sua existência se torna semelhante à dos homens, menos aceitável parece ser a ideia de que ele continue sendo tratado como uma máquina. O problema de Andrew deixa então de ser aquilo que ele é capaz de fazer e passa a ser aquilo que os outros estão dispostos a reconhecer nele. Ele pode criar, pensar, trabalhar, possuir bens e construir relações, todavia continua sendo visto como uma propriedade, como algo que pertence a alguém.
Essa diferença se torna ainda mais evidente quando Andrew é agredido. Sua capacidade de sentir e compreender o que está acontecendo não é suficiente para impedir que outra pessoa o trate como um objeto que pode ser danificado. Nesse momento, sua busca por reconhecimento deixa de parecer apenas um desejo pessoal. Andrew não quer simplesmente que os humanos gostem dele ou admitam que ele é especial. Quer que sua existência seja considerada válida, que sua vontade tenha valor e que existam limites para aquilo que os outros podem fazer com ele. Talvez seja essa a razão pela qual sua busca por reconhecimento pareça, em alguns momentos, quase ingênua. Andrew sabe quem é. Não precisa que alguém lhe explique sua própria identidade.
Ainda assim, continua buscando uma confirmação que só pode vir de fora. Ele quer ser chamado de homem porque, em um mundo no qual continua sendo tratado como objeto, saber que é uma pessoa não é suficiente. Ele pode possuir liberdade para escolher seu trabalho, seus bens e suas relações, contudo, essa liberdade permanece incompleta enquanto sua condição de sujeito não for reconhecida. Existe uma diferença entre poder fazer escolhas e ter o direito reconhecido de fazê-las. Essa questão ultrapassa a história de Andrew.
A necessidade de reconhecimento aparece também em situações muito mais próximas da realidade humana. Pessoas e grupos podem saber perfeitamente quem são e qual é seu próprio valor, mas ainda assim viver em sociedades que lhes negam igualdade, dignidade ou direitos. O reconhecimento, nesse contexto, não significa simplesmente receber a aprovação dos outros. Significa ter o direito de existir socialmente como sujeito, de ter sua vontade considerada e de esperar que as instituições protejam sua existência. Andrew vive essa questão de maneira extrema. Ele sabe quem é, constrói uma vida própria e possui consciência de seu valor, mas continua submetido a uma sociedade que insiste em defini-lo por aquilo que ele foi criado para ser. É justamente por isso que a decisão de Andrew de abrir mão de sua imortalidade é tão significativa. A morte não lhe acrescenta nenhuma das características que já possuía. Ele não passa a pensar melhor, não se torna mais criativo, não adquire sentimentos que antes não tinha. Continua sendo Andrew. A diferença é que agora seu corpo pode morrer. A mortalidade, portanto, não parece ser aquilo que ele realmente buscava, porém o preço que aceita pagar para finalmente ser reconhecido como homem.
É possível imaginar que, se os humanos estivessem dispostos a aceitá-lo como pessoa sem essa transformação, Andrew teria preferido continuar existindo como era. Nada indica que desejasse a morte por si mesma. O que ele desejava era pertencer. Depois de conquistar quase tudo que uma vida humana poderia oferecer, restava apenas aquilo que não podia conquistar sozinho: o reconhecimento dos outros. Andrew chega a esse reconhecimento quando já tem mais de duzentos anos e, ironicamente, pouco tempo lhe resta para vivê-lo.
Existe, então, uma contradição no final da história. Andrew não se torna humano quando morre. Ele já havia construído sua humanidade muito antes disso, através de suas escolhas, de sua criatividade, de seus vínculos e da vida que construiu para si. A morte apenas satisfaz a última condição que os homens impuseram para reconhecê-lo como um deles. Ele precisou abrir mão justamente da característica que o tornava extraordinário para receber algo que, de certa forma, já possuía. Talvez seja essa a parte mais humana de sua história. Não sua capacidade de criar, pensar ou sentir, mas o desejo de ser reconhecido pelo outro. Andrew queria ser homem e conseguiu. Contudo, para que os homens aceitassem isso, ele precisou morrer.
E fica uma pergunta difícil de abandonar: se nada havia mudado em Andrew além de sua capacidade de morrer, o que exatamente havia impedido os homens de reconhecê-lo antes?
Germano Bemfica Holderbaum é um advogado e autor brasileiro.
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